| O
historiador francês Jean Delumeau fala sobre "O Pecado e
o Medo",
que estuda os métodos de culpabilização desenvolvidos
pela igreja
A
construção da ordem terrena
Ronaldo Vainfas
especial para a Folha
Jean
Delumeau é, sem sombra de dúvida, um dos maiores historiadores
franceses de todos os tempos, embora mais discreto do que muitos que
mal se comparam à sua erudição e talento. As obras
de Delumeau (1923) mais conhecidas dos brasileiros, leituras obrigatórias
de todo estudante universitário de história, foram, por
décadas, "Nascimento e Afirmação da Reforma"
e "O Catolicismo de Lutero a Voltaire". Dois belíssimos
manuais, publicados na coleção "Nouvelle Clio"
[da editora francesa PUF], que puseram em cena -e em xeque- as duas
grandes pastorais da época moderna.
De um lado, a crítica radical das reformas, com sua justificação
pela fé, sua doutrina do sacerdócio universal, seu apego
à infalibilidade da Bíblia, do que resultou, entre outras
coisas, a alfabetização das massas e o êxito do
texto escrito. De outro, a pastoral da igreja de Roma e sua valorização
do misticismo regrado, da canonização dos militantes,
das hierarquias, das imagens, das procissões, da Virgem Maria,
do que resultou o espetáculo do barroco.
O principal da obra de Delumeau, no entanto, se compõe de sete
livros que integram um dossiê, como diz o autor no prefácio
à edição brasileira de "O Pecado e o Medo".
Um dossiê dedicado ao tema do medo, do pecado, da confissão,
do paraíso. Inicia com "História do Medo no Ocidente"
(1978) e termina -se é que vale o verbo- com "O Que Sobrou
do Paraíso" (2000), ambos publicados no Brasil pela Companhia
das Letras. Entre o livro de 1978 e o de 2000, Delumeau publicou, em
1983, o que considero seu livro maior, ou ao menos o livro-chave desse
dossiê: "O Pecado e o Medo". Foi este livro, para mim,
como historiador, uma verdadeira bíblia para conhecer por dentro,
incluindo diversos caminhos sinuosos, a pastoral do medo posta em prática
no Ocidente desde os séculos finais da Idade Média até
o século 18.
É nele que Delumeau esmiúça os diversos veículos
da culpabilização das consciências e dos atos individuais
que a igreja desenvolveu pouco a pouco, enraizando-os, a serviço
de si mesma e do Estado, ao menos no tempo em que igreja e Estado, no
mundo católico, mantiveram estreita aliança.
É
neste livro que Delumeau aprofunda, examinando sermonários, penitenciais,
manuais de confissão, tratados espirituais, modelos ascéticos
e toda uma produção livresca de cariz tridentino, os meios
e modos pelos quais a Igreja Católica pôde manter, em parte,
a sua hegemonia na Europa e ainda irradiá-la no ultramar.
Mas Delumeau não esquece jamais do lado protestante, da "pastoral
dos reformados", também ela, por outras vias, cultora do
medo e, por vezes, mais ameaçadora, ao acenar com os castigos
dos homens, Purgatório ausente, mais do que com as penas do além.
A obra de Delumeau [leia abaixo entrevista com o historiador] é
absolutamente essencial para conhecer em profundidade esses percursos
do ponto de vista histórico. Ficamos conhecendo muito bem quais
os autores dessa pastoral, quando e como a construíram e por
que a fizeram. Ficamos conhecendo também seus resultados. No
primeiro passo, o reforço, no século 16, da religião
cristã, católica ou protestante, posta em xeque pelos
arroubos laicizantes do Renascimento.
Passo seguinte: a disciplinarização dos indivíduos,
como diria Michel Foucault (1926-1984), ou a tessitura da civilidade,
como diria Norbert Elias (1897-1990) -o que, no contraponto, foi elemento
poderoso para a construção da própria individualidade,
como nos ensinou Philippe Ariès.
No terceiro passo, a preocupação central de nosso autor:
a descristianização do Ocidente, em grande parte resultante
de uma pastoral que preferia aterrorizar, prometendo a felicidade paradisíaca
apenas para os mortos. Triunfo do medo, derrota do amor, elemento essencial
da mensagem cristã.
É verdade que no século 19 o romantismo entronizou o amor,
embora fosse amor profano, diferente da "caritas". Mas também
adiante o amor dos românticos seria derrotado, pelo que se vê
hoje em dia. Novo triunfo do medo. Para entender como o medo construiu
sua história, guiado pela igreja e seus demônios; como
o prazer virou luxúria; e como a espiritualidade se pôs
a serviço de regras canônicas, a obra de Delumeau é
a que nos fornece as melhores respostas, pistas, caminhos.
Delumeau aprofunda os meios e modos pelos
quais a
Igreja Católica pôde manter, em parte, a sua hegemonia
na Europa e ainda irradiá-la no ultramar
Entre
"História do Medo no Ocidente" e "O Que Sobrou
do Paraíso", seus livros exprimem uma forte tensão
no imaginário ocidental desde a Baixa Idade Média ao século
18: a tensão entre o medo e a busca de felicidade. Essa é
uma preocupação essencialmente religiosa ou diz respeito
à consciência individual do homem ocidental?
Penso que a tensão entre medo e aspiração à
felicidade existe em toda vida humana e em todas as civilizações.
Mas de um lado sou um historiador da civilização ocidental
e, de outro, esse importante tema não havia sido estudado como
tal pelos historiadores. Portanto, quis suprir uma lacuna em uma longa
investigação, o que me exigiu 28 anos de trabalho.
"O Pecado e o Medo" sublinha a enorme ênfase que a pastoral
culpabilizadora da igreja deu ao pecado da luxúria. É
possível dizer que o combate à luxúria assumiu
o primeiro plano na Contra-Reforma? É possível dizer que
as igrejas protestantes foram, em geral, menos obsessivas pelo tema
da luxúria? Ou, pelo contrário, a julgar pela violência
dos tribunais calvinistas de Genebra ou de Amsterdã contra os
homossexuais, por exemplo, foram elas mais repressivas?
Ao contrário do que subentende sua pergunta, meu livro "O
Pecado e o Medo" não se fixa nas questões sexuais
e no pecado da luxúria, que não foram a principal preocupação
dos moralistas medievais. É verdade, no entanto, que depois do
Concílio de Trento (1545-63) a pastoral católica acentuou
sua insistência nesses temas. Aconteceu o mesmo no mundo protestante.
Foi uma atitude geral das elites religiosas em todo o Ocidente. O modelo
ascético divulgado pela "pastoral do medo" se relaciona
diretamente com a valorização da experiência mística
e com a introjeção da religião, aspectos importantes
da "Devotio moderna". Tal modelo, a seu ver, exprime apenas
uma ética da renúncia de si em favor de Deus ou possui
aspectos positivos?
Não tenho certeza de que o modelo ascético esteja obrigatoriamente
ligado à experiência mística. Por outro lado, ele
foi valorizado pela "Devotio moderna" e sua obra de referência,
a "Imitação de Jesus Cristo", cujo sucesso foi
enorme e duradouro. A questão de saber se esse convite à
renúncia teve "aspectos positivos" não se coloca
para o historiador, que não deve emitir julgamentos de valor.
Mas ninguém pode negar que essa espiritualidade da renúncia
teve um papel importante na história religiosa cristã;
e será sempre assim.
O assunto de "O Pecado e o Medo" pode facilmente conduzir,
como me conduziu, à história da Inquisição,
tema que nesse livro aparece discretamente, apesar do forte parentesco
que há entre pecado e heresia. Como pensar a heresia e o papel
da Inquisição nessa pastoral culpabilizadora da igreja?
A Inquisição não foi meu tema em "O Pecado
e o Medo". A Inquisição nasceu de um medo da heresia,
da qual por muito tempo se pensou que perturbava a ordem da sociedade.
Não esteve forçosamente ligada a uma repressão
moralizante, embora seja verdade que às vezes tenha participado
disso.
Sua obra de conjunto segue diretamente, aprofundando-a, uma das vertentes
mais fecundas do movimento dos Annales, sobretudo a obra de Lucien Febvre.
Pode-se dizer que sua obra é herdeira dessa vertente mais clássica
dos Annales ou se insere mais no que se chamou, nos anos 1970, de Nova
História?
O ponto de partida de minha pesquisa foi um artigo de Lucien Febvre
de 1952, no qual ele desejava que um dia se escrevesse a história
do sentimento de segurança -o que fiz em "Rassurer et Protéger"
(1989). Mas eu precisava primeiro escrever uma história do medo.
Meus modelos foram Febvre, Marc Bloch e Philippe Ariès, isto
é, a primeira Escola dos Annales. Depois disso assumi minha independência
para compor uma síntese original que conduz o leitor do medo
à esperança, pelo caminho da história.
Sua obra atribui a progressiva descristianização do Ocidente
ao triunfo dessa pastoral culpabilizadora que se foi enraizando por
séculos. Seria possível dizer que a laicização
ou racionalização progressiva do pensamento ocidental
foi um subproduto dessa pastoral, que só admitia a felicidade
para os mortos? Essa pastoral fez triunfar o medo sobre o amor, valor
inerente à mensagem cristã, como nos mostra "O Pecado
e o Medo". Mas o romantismo fez seu esforço em favor do
amor, no século 19, embora por via e com motivações
totalmente diferentes. O resultado foi de todo modo péssimo,
pois, nos dias de hoje, espiritualidade e amor parecem valores muito
desprezados no mundo ocidental. O que dizer sobre isso?
Acredito efetivamente, e creio tê-lo demonstrado, que o que chamei
de "pastoral do medo", dando uma imagem repulsiva de Deus,
deformou a mensagem cristã e contribuiu para a descristianização.
Concluo que uma nova evangelização não deveria
cair nos mesmos erros. Constato felizmente que, hoje em dia, por um
lado a palavra cristã não desvaloriza mais a vida terrena
e, por outro, insiste prioritariamente no amor.
Ronaldo
Vainfas é professor de história moderna na Universidade
Federal Fluminense (UFF) e autor de "Os Protagonistas Anônimos
da História" (ed. Campus), entre outros livros.
Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves.
O
Pecado e o Medo
1.066 págs. (2 volumes), R$ 139,00
de Jean Delumeau. Tradução de Álvaro Lorencini.
Editora da Universidade do Sagrado Coração
(r. Irmã Arminda, 10-50, CEP 17011-160, Bauru, SP, tel. 0/xx/14/3235-7111).
|